"A voz das pessoas na Venezuela é de desesperança"
Sexta, 15 Fevereiro 2019 10:03    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

ana cristina monteiroEntrevista a Ana Cristina Monteiro, presidente da Associação da Comunidade de Imigrantes Venezuelanos na Madeira (Venecom) e vereadora do CDS na Câmara do Funchal.

 

A lusodescendente Ana Cristina Monteiro trocou Caracas pela Madeira, terra natal do seu pai, há 11 anos. A advogada é presidente da Associação da Comunidade de Imigrantes Venezuelanos na Madeira, procurando ajudar aqueles que chegam a lidar com a burocracia portuguesa e evitar que cometam os mesmos erros que aqueles que já chegaram há mais tempo.

Ao DN, falou do trabalho da associação e da esperança que tem numa mudança na Venezuela, defendendo que o forte apoio internacional ao presidente interino, Juan Guaidó, marca a diferença em relação ao passado. Mas defende que Guaidó tem de ser cuidadoso nos próximos passos, lembrando que há ainda muitos venezuelanos que estão cheios de dúvidas em relação ao futuro.

Ana Cristina Monteiro foi uma das convidadas da conferência Portugal e Venezuela - Testemunhos e Respostas, organizado pelo IDL - Instituto Amaro da Costa, em Lisboa.

Há quanto tempo foi criada a Venecom e que tipo de trabalho realiza?
A associação foi constituída há um ano e meio, como consequência da chegada dos venezuelanos à Madeira. Vimos que havia a necessidade de informação, de comunicação. Eu sou advogada e na direção há mais advogados. Nós notávamos que as pessoas chegavam um bocadinho perdidas, com muitas dúvidas, e pensámos então em associar-nos, porque já éramos muitos, e de alguma forma ajudar os que estavam a chegar para que não cometessem os mesmos erros que nós tínhamos cometido. E assim facilitávamos um pouco a integração. De repente, começaram a chegar muitas mais pessoas e começámos a fazer mais atendimentos pessoais, temos também atendimentos através do Facebook.

Quantas pessoas já ajudaram?
Penso que mais de 800. No início tínhamos três dias de atendimentos, depois passámos a dois e agora damos atendimento em qualquer dia. Tentamos ajustar nas agendas de cada um, porque estamos num período em que vemos que há muitas mais solicitações de ajuda. Tinha havido uma primeira vaga, que acalmou, e agora sentimos novamente o aumento do número de chegadas. Com preocupações diferentes. Agora temos preocupações a nível laboral, com pessoas com problemas no trabalho, ou pessoas que não encontram trabalho, ou pessoas que querem fazer a equivalência dos diplomas, outras com dificuldades económicas, porque chegaram e não têm apoio social. Outras que perguntam como podem tramitar a autorização de residência ou de nacionalidade. Cada uma destas pessoas tem o seu problema particular. O nosso trabalho é, de alguma forma, dirigir as pessoas para as instituições adequadas, dar dicas sobre como podem fazer as coisas. Em relação aos apoios sociais, também explicamos que benefícios podem ter, aonde se podem dirigir. É esse o trabalho que temos feito. Também temos feito conferências informativas com responsáveis de instituições como o SEF ou a Conservatória dos Registos Centrais, porque acreditamos que o sucesso está na informação.

Há quanto tempo está na Madeira?
O meu pai é da Madeira, nasceu no Loreto. Estudou na Madeira, mas foi para a Venezuela trabalhar. Nasci na Venezuela e há 11 anos vim com o meu marido e os meus filhos para a Madeira. Comecei, como todos os outros, primeiro com um emprego part-time. Depois abrimos o nosso próprio negócio, fizemos uma padaria, uma venda de pão quente. E depois iniciei a minha equivalência de estudos de Direito. Acabei há quatro anos. Agora também estou a acompanhar o CDS, sou vereadora na Câmara Municipal do Funchal.

Há 11 anos, quando decidiu deixar a Venezuela, sentia que a situação já era complicada?
Sim. Naquela altura já não tínhamos liberdade para andar livremente por Caracas. Já só íamos da casa à escola, da escola ao supermercado, do supermercado a casa. Já não podíamos escolher onde ir. Além disso, não gosto nada da corrupção. Não posso ensinar os meus filhos a não acreditarem na polícia. As instituições têm de existir para ser respeitadas e eu não podia ensinar os meus filhos a não falar com a polícia, porque podia ser vítima de sequestro. Numa criança de 4 anos não faz sentido. Então pensámos que o momento era aquele, porque eles eram pequenos. E optámos pela Madeira porque, de alguma forma, embora tivéssemos ido lá um par de vezes de visita, o facto de ser a terra do meu pai já fazia que ela fosse também a minha. E sentimo-nos totalmente identificados. Queríamos para os nossos filhos uma vida saudável, livre, com diretrizes normais, com autoridades a respeitar, com regras a cumprir. Eles já falam português, cada um já tem a sua vida estável. Adoram a Venezuela e têm saudades de algumas coisas, de que ainda se lembram, mas um dia voltaremos de visita. Já estamos cá há muitos anos e não penso que vamos voltar a deixar tudo para regressar.

Como é que vê a situação atual na Venezuela?
Com esperança de uma mudança, de uma Venezuela melhor, livre. Mas também olhamos com cautela. Acho que temos de ser cuidadosos, que o presidente interino Juan Guaidó tem de ser cuidadoso nos próximos passos. Vinte anos de destruição da Venezuela não podem ser recuperados em 15 dias. Acho que temos de ter paciência. É difícil pedir paciência às pessoas que lá estão a sofrer. Para mim, a maior preocupação é a crise humanitária e social que está a acontecer na Venezuela. As pessoas estão com grandes necessidades e o governo não está a responder, não está a fazer nada para corrigir a situação. Penso que Guaidó tem de ser cuidadoso com os passos que está a dar para não se enganar novamente, como aconteceu no passado, e poder chegar a bom porto.

Mas acha que ainda há volta a dar para Maduro?
Não, acho que o tempo de Maduro acabou. Penso que tem de aceitar e dar lugar a uma mudança e a uma melhoria do país. Não acredito que os militares e que quem apoia o governo queiram ver uma Venezuela como a que existe agora. Quando amamos a nossa terra queremos o melhor para ela. Se eles dizem amar a Venezuela, seguramente vão querer o melhor para ela.

Existe o risco de guerra civil?
Se Maduro não reagir como um democrata, como o socialista que diz que é, penso que lamentavelmente poderá acontecer. Embora ainda tenha a esperança de que a mudança será pela via democrática e não posso pensar de outra forma. A solução são umas eleições livres, não tenho a mínima dúvida. E penso que a eventual entrada de militares estrangeiros será para garantir essas eleições livres, porque só assim é que os cidadãos vão conseguir acreditar em iniciar uma nova vida.

Da parte de Portugal e da União Europeia que atitude e ação espera?
O apoio internacional é fundamental para a resolução desta crise. Noutras ocasiões já tínhamos visto aquela luz no final do túnel, mas ela apagou-se por falta desse apoio. Hoje temos um apoio internacional forte e isso marca a diferença na pressão para que sejam convocadas eleições livres.

Das pessoas com quem tem contacto na Venezuela, qual é o estado de espírito delas?
As pessoas estão todas esperançadas, mas também cheias de dúvidas. A voz das pessoas na Venezuela é de desesperança. Eles pensam que esta é mais uma oportunidade, mas já passaram por tanto, já tiveram tantas oportunidades que não deram em nada que estão cheias de dúvidas. E pensam: será que é desta?

 

Fonte: Diário de Noticias

 

História CDS

user4_pic

Conheça a história do Grupo parlamentar do CDS.

Parlamento Direto

bancada copy

Videos do Plenário, comissões e outras intervenções.

Iniciativas CDS

1 reuniao gp

Projetos de Lei e Projetos de Resolução apresentados pelo Grupo Parlamentar.

Deputados CDS

News image

Assunção Cristas

Círculo Eleitoral Leiria Presidente do CDS-PP

News image

Nuno Magalhães

Círculo Eleitoral Setúbal Presidente do Grupo Parlamentar Vice-Pres...

News image

Cecília Meireles

Círculo Eleitoral Porto Vice-Presidente do Grupo Parlamentar Vic...

News image

Telmo Correia

Círculo Eleitoral Braga Vice-Presidente do Grupo Parlamentar

News image

Hélder Amaral

Círculo Eleitoral Viseu Vice-Presidente do Grupo Parlamentar

News image

Teresa Caeiro

Círculo Eleitoral Faro Vice-Presidente da Assembleia da República

News image

António Carlos Monteiro

Círculo Eleitoral Aveiro Secretário da Mesa da Assembleia da Repúblic...

News image

Álvaro Castello-Branco

Círculo Eleitoral Porto

News image

Ana Rita Bessa

Círculo Eleitoral Lisboa

News image

Filipe Anacoreta Correia

Círculo Eleitoral Lisboa

News image

Ilda Araújo Novo

Círculo Eleitoral Viana do Castelo

News image

Isabel Galriça Neto

Círculo Eleitoral Lisboa

News image

João Gonçalves Pereira

Círculo Eleitoral Lisboa

News image

João Pinho de Almeida

Círculo Eleitoral Aveiro

News image

João Rebelo

Círculo Eleitoral Lisboa

News image

Patrícia Fonseca

Círculo Eleitoral Santarém

News image

Pedro Mota Soares

Círculo Eleitoral Porto

News image

Vânia Dias da Silva

Círculo Eleitoral Braga