O maior erro é não fazer
Terça, 02 Julho 2019 00:00    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

mota soares sitePassei 10 dos meus últimos 15 anos ao serviço do Parlamento.

Não obstante as inúmeras vezes que cá vim quando desempenhei as funções de ministro da segurança social e emprego, o tempo que cá estive como deputado foi na oposição.

Trabalhei muito, resisti muito e sinto que também alcancei muito.

Sempre em prol do país, numa visão que considero a que melhor que o serve, ainda que naturalmente outros dela discordem.

E este ponto leva-me ao valor maior que aprendi nesta Assembleia e que vou sentindo esquecido: o valor do compromisso.

É na casa onde se expõem e se debatem as diferenças – que são a essência das democracias – que também se podem alcançar os compromissos.

A casa do debate também pode ser a casa do diálogo.

Adelino Amaro da Costa numa frase muito citada, mas nem sempre compreendida, dizia que “um moderado serve-se do compromisso para evitar a rutura”.

E evitar ruturas vai ser, em si mesmo, um desígnio nacional.

E é fácil perceber isso quando se encontram grandes deputados, de todos os grupos parlamentares sem exceção.

Só para citar alguns líderes parlamentares – e assim tentar não ferir qualquer suscetibilidade – lembro-me do José Pedro Aguiar Branco do PSD, do António José Seguro do PS, do Bernardino Soares do PCP ou do Luís Fazenda do Bloco de Esquerda.

E claro, aquele que foi para mim o mais inspirador – Paulo Portas do meu próprio partido.

Curiosamente nenhum deles está cá hoje. Não sei que significado isso tem e o mais provável é não ter significado algum. Mas estou certo que os que cá estiverem terão de encontrar o mesmo espírito de compromisso.

Reforcei também neste Parlamento a convicção profunda que tenho pela liberdade e pela democracia.

Porque é o valor e é o sistema – para lá das dificuldades e imperfeições – que é nos permite a todos participar na sua construção diária.

E num tempo de ruturas, de diminuição das liberdades e de retrocesso das democracias – dos regimes tomados por populistas ou minados pela corrupção, às democracias ditas iliberais – volta a ser necessário fazer profissão de fé na democracia.

Assisti a muito nestes 15 anos.

Um país que passou pela euforia e pela crise.

Em que a nossa soberania foi empenhada e em que foi preciso pagar um alto preço em sacrifício para a podermos recuperar.

Um país que, infelizmente, cresceu pouco e criou menos riqueza do que aquela que esteve ao nosso alcance criar.

No tempo em que podemos fazer escolhas mais livres – porque um país que cresce é sempre um país mais livre – a pergunta que nos devíamos estar a fazer é como garantir a sustentabilidade do nosso crescimento.

O que temos de fazer para que a nossa economia cresça em média 3% por ano na próxima década?

Como garantir nos próximos 10 anos que a nossa balança comercial é globalmente equilibrada e que as exportações representem mais de metade no nosso produto?

Como garantir que o desemprego, que depois da flexibilização da lei tem estado sempre a cair, se mantém estável e duradouramente baixo?

Como quebrar de vez os círculos de pobreza que se transmitem de geração em geração?

Como garantir a um trabalhador, em tempos de globalização, que pelo seu trabalho, esforço e mérito, pode deixar mais aos seus filhos do que o que recebeu dos seus pais?

Como criar condições para que aqueles que querem constituir a sua própria família possam fazê-lo – e contribuir assim para o aumento da natalidade, fundamental para a sustentabilidade do estado social? E como construir uma sociedade mais inclusiva para os nossos mais idosos?

O que queremos fazer quanto ao ambiente, nós que somos a geração que começa a sentir os efeitos das alterações climáticas e que temos o poder de efetivamente as contrariar, no que à responsabilidade humana respeita?

E o que estamos a fazer para preparar Portugal para a 4.ª revolução industrial, a que já está (usando um verbo em voga, mas que não existe no dicionário) a disromper a nossa economia e o nosso mundo laboral?

A resposta a estas questões vai ter de ser alcançada, mais do que no confronto, na capacidade de compromisso.

Não vos escondo minha preocupação quanto às dificuldades em se alcançar esse compromisso.

Assistimos a um tempo de quebra das convenções que existiram durante uma grande parte da nossa democracia. Compromissos que no passado nunca haviam necessitado da palavra escrita para serem honrados.

Pela 1.º vez governa quem não ganhou as eleições.

Pela 1.ª vez preside a esta câmara alguém que não foi indicado pelo grupo político com mais deputados.

Pela 1.ª vez os acordos de concertação social não são respeitados no Parlamento.

Até o respeito pelo princípio da subsidiariedade com a economia social é, pela 1.ª vez, colocado em causa na prestação de cuidados de saúde e assistência aos portugueses.

Preocupa-me tanto o desrespeito pelas convenções quer na América do senhor Trump, como na Europa dos extremismos e populismos e no Portugal dos dias de hoje. Não aceito é a duplicidade de padrões.

Todos estes fatores, acrescidos de uma agenda mediática capturada por epifenómenos conjunturais, reduzem a intervenção desta casa.

Vivemos num mundo em que a inteligência artificial, a automação e robotização, a internet das coisas, os computadores quânticos, a tecnologia blockchain, as máquinas que aprendem por si mesmas estão a revolucionar o mundo da economia e o mundo do trabalho.

Um tempo em que a disrupção tecnológica está a mudar profundamente a nossa sociedade.

Mas nesta sala discutimos mais vezes a caça à raposa do que as questões éticas, sociais e económicas que a inteligência artificial coloca.

Hoje vamos debater as corridas de galgos e não vamos conseguir falar do acordo comercial da europa com o Mercosul.

Discutimos mais vezes a semântica do politicamente correto do que o tipo e número de empregos que vão ser substituídos por robots.

Admito que não seja só um mal português.

É um vento soporífero que atravessa toda a Europa.

Mas a mim preocupa-me verificar que o mundo gira cada vez mais fora desta sala e que gira cada vez mais num eixo que não passa pela Europa.

No domingo das eleições europeias, já tarde, uma senhora jornalista perguntou-me o que é que iria fazer no dia a seguir.

Respondi-lhe com uma frase que, para quem é do CDS, têm um significado especial.

Respondi “amanhã? Amanhã vou plantar macieiras”.

Na 5.ª feira seguinte fui, à minha maneira, plantar macieiras.

Estive em Cascais, na escola que foi a minha durante anos, a falar com jovens sobre a velocidade da mudança que vi acontecer nos últimos 15 anos.

Em 2005, quatro anos após os ataques do 11 de setembro, não se duvidava da supremacia política, militar e económica dos EUA. 

Na Europa tínhamos acabado de celebrar o alargamento a leste.

Hoje, entre a China e o Brexit, tudo parece a um século de distância.

Em 2005, não existia iPhone ou Instagram e o Facebook tinha acabado de nascer.

2005 foi o ano em que nasceu o Youtube mas a Netflix ainda só enviava dvd´s por encomenda postal.

Sem Uber, trotinetas elétricas, Whatsapp ou sequer GPS nos telemóveis, a forma como comunicávamos, nos relacionávamos, como víamos as notícias parece agora um passado longínquo da história.

E tudo isto se passou no tempo de vida dos nossos alunos, alunos que estão hoje no 8.º, 9.º ou 10.º ano.

No fim, mesmo no fim, um deles fez-me uma pergunta.

“Qual o maior erro que se pode fazer em política?”

Respondi o que vos quero reafirmar aqui hoje.

Em política o maior erro é não fazer.

O segundo maior erro é desistir.

Termino com as únicas palavras que hoje podem fazer sentido.

A todos, a todos sem exceção, o meu muito obrigado e uma palavra especial aqueles a quem posso ter falhado.

Que seja essa a derradeira lição: – aprender com os erros que cometemos.

Disse.

 

Pedro Mota Soares

 

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