A porta do SNS não está aberta para doentes não covid-19
Sexta, 02 Outubro 2020 10:57    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

ana rita bessa 2020Já antes da pandemia, eram conhecidas e verificáveis as limitações do Serviço Nacional de Saúde (SNS) na garantia de cuidados de saúde a todos os cidadãos, em todas as zonas do país, a tempo e horas.

Agora, com sete meses de uma crise de saúde pública – que tende a entrar em nova fase aguda – a consequência destas limitações é ainda mais preocupante.

Segundo o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, até julho, ficaram por realizar sete milhões de contactos presenciais entre enfermagem e consultas médicas, nos Cuidados de Saúde Primários (CSP). E a jusante, nos hospitais, ficaram por fazer 900 mil consultas e 90 mil cirurgias.

Tudo isto pode ter efeitos, e efeitos graves, na saúde dos portugueses.

Tão grave, ou até mais grave, do que a crise de saúde pública do Covid-19, é esta outra crise da doença não Covid-19 – de pessoas que não estão a ser diagnosticadas, não estão a ser tratadas no tempo certo.

Em alguns casos, a tempo.

É importante que seja explicado o excesso de mortalidade – mais seis mil mortes do que em igual período de 2019, das quais menos de dois mil são por Covid-19. E é preocupante a suspeita do aumento das morbilidades que não temos como avaliar ou dimensionar.

Neste momento, enquanto os hospitais retomam lenta e assimetricamente a sua atividade, o Plano de Outono Inverno da Direção-Geral da Saúde não se consegue aplicar nos CSP, e a porta de entrada para o SNS não está realmente aberta.

Porque os médicos de família estão crescentemente sobrecarregados com a vigilância Covid-19 – no despiste de potenciais suspeitos, ou no seguimento diário dos casos em isolamento – porque têm de assegurar as novas Áreas Dedicadas aos Sintomas Respiratórios e as deslocações para os lares, quando assim é requerido.

E, portanto, os médicos não conseguem fazer as consultas, acompanhar os 1900 doentes das suas listas, e muito menos os outros que nem nas listas estão.

As pessoas dirigem-se aos centros e unidades de saúde e deparam-se com filas para senhas de marcações e filas para as senhas das consultas, e tudo do lado de fora, para garantir a distância social que, claro, se torna numa ficção à porta e aos olhos de todos.

A Senhora Ministra afirma que será difícil atingir o nível de 2019 na assistência a outras doenças. Mas a verdade é que não tem de ser assim.

Dever-se-ia ter começado a trabalhar mais cedo. Mas ainda é tempo se forem tomadas algumas medidas que o CDS recomenda neste projeto e das quais destaco:

  • Em primeiro lugar, a colocação dos novos médicos de família que se candidataram às 435 vagas do concurso de maio e que ainda não foram contratados.

A sua falta contribui para que hoje quase um milhão de portugueses não tenha médico de família – mais 300 mil utentes que no ano passado. Onde terá ficado a promessa de um médico e de uma equipa de saúde familiar para cada português?

  • Em segundo lugar, o reforço criterioso dos recursos humanos – enfermeiros, assistentes operacionais e assistentes técnicos – e dos meios de acesso – seja a capacidade das centrais telefónicas seja um sistema de marcação digital – para uma resposta célere e segura aos cidadãos;
  • E, em terceiro lugar, a garantia da cobertura nacional da rede de CSP, com plena capacidade de resposta, se e onde necessário, contratualizando com os setores privado e social.

No momento presente, querer teimosamente provar que só o SNS basta, é fechar a porta a muitos portugueses pondo em risco a sua saúde, para além do Covid-19.

Há unidades privadas e profissionais de saúde disponíveis, mesmo que transitoriamente, para aliviar pressão nos CSP e no SNS.

A escolha é simples e cristalina: vai o Governo usá-las para cuidar das pessoas, ou vai usar as pessoas para cuidar do SNS?

Sendo certo que o número de teleconsultas tem vindo a aumentar (segundo o Portal da Transparência em julho de 2020 realizaram-se 23.640 consultas em telemedicina quando, em julho de 2019, tinham-se realizado 16.908), esta não é a solução ideal, nem a mais adequada para todos os casos.

A este propósito, referiu o presidente da APAH, também no passado dia 08, que «os números da telemedicina até podem ser positivos, mas este recurso será sempre complementar e ainda não está consolidado de forma uniforme em Portugal e pode mascarar uma realidade que se pode tornar ainda mais grave num futuro próximo», pois «não é apenas com uma chamada telefónica» que se podem «realizar rastreios, diagnósticos, conhecer o doente e referenciá-lo adequadamente para os cuidados especializados».

Há coisas simples a fazer, como alterar a rotina de acompanhamento de casos em isolamento – muitos deles estarão estabilizados e não precisarão de vigilância diária, libertando os médicos para os seus doentes não Covid-19.

 

Deputados CDS

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Telmo Correia

Círculo Eleitoral Braga Presidente do Grupo Parlamentar  

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Ana Rita Bessa

Círculo Eleitoral Lisboa

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Cecília Meireles

Círculo Eleitoral Porto  

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João Gonçalves Pereira

Círculo Eleitoral Lisboa

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João Pinho de Almeida

Círculo Eleitoral Aveiro