O desafio maior é servir de ponte entre o que somos e o que queremos ser, sem deixar ninguém para trás
Quarta, 31 Março 2021 21:51    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

joao goncalves pereiraMuito obrigado, Senhor Presidente,

Senhoras e Senhores Deputados,

Não deixa de causar um travo amargo saber que é a última vez que pronuncio esta saudação nesta câmara.

É a minha última intervenção nesta câmara, enquanto deputado à Assembleia da República. E gostaria de evocar, antes de cumprimentar quem de direito, um poeta irlandês.

Escreveu ele que “um homem é original quando afirma a verdade que foi sempre conhecida por todos os homens bons”. E a verdade é que uma renúncia parlamentar não tem muito de original. Já todos assistimos a várias, vindas das muitas bancadas.

Na política, particularmente em democracia, não há nada de excecional numa despedida. Os ciclos passam, os rostos mudam, as ideias alteram-se. E é assim que deve ser.

Não venho, por isso, fazer um discurso que se resuma a um “adeus”. Até porque não tenciono abandonar a militância partidária, nem tão-pouco a intervenção cívica.

Dedicar-me-ei nos próximos meses – se o meu partido assim mo permitir – ao combate local, porque é nas autárquicas que se apura a força de um partido, e também por acreditar que o CDS precisa, mais do que nunca, de dar prova de vida.

Mas para não desperdiçar a evocação do poeta, permitam-me recuperar alguma originalidade.

Fui deputado em três legislaturas distintas, em três situações igualmente distintas. No apoio a um Governo que enfrentava uma crise financeira, na oposição a um Governo que gozava de uma enorme popularidade e, por último, agora, na oposição a um Governo que enfrenta uma pandemia.

Todas as legislaturas foram de uma exigência diferente entre si, e creio que esse também é um sentimento que todas as bancadas reconhecerão como familiar.

Esta última, na sua excecionalidade e incerteza, no seu gigantesco impacto e imprevisibilidade, representa provavelmente o maior desafio que esta Assembleia enfrentou desde a consolidação da democracia.

E, senhoras e senhores Deputados, quero deixar aqui bem claro: naquilo que me for possível, contem comigo para o enfrentar.

Contem comigo, como cidadão e autarca, para estar ao vosso dispor nesta missão, que sei difícil e que já partilhei convosco. Contem comigo, como cidadão e autarca, sabendo e reconhecendo a importância deste Parlamento.

Nas semanas em que ponderei sobre a minha saída, refleti muito sobre a nossa função, sobre o papel desta Assembleia na nossa democracia.

E posso dizer-vos, senhoras e senhores Deputados, que saio com a consciência tranquila de saber que o País, da esquerda à direita, está aqui bem representado.

Pelo deputado Bruno Dias do PCP,

Pela deputada Isabel Pires do BE,

Pelo deputado André Silva do PAN,

Pela deputada Mariana Silva d’Os Verdes,

Pelos deputados Hugo Costa, pelo Filipe Pacheco ou o Pedro Coimbra do PS,

Pelos deputados Hugo Carvalho, Cristóvão Norte ou Bruno Coimbra do PSD,

Pelo deputado João Cotrim de Figueiredo da IL,

Pelo deputado André Ventura do Chega,

Pelas deputadas independentes Cristina Rodrigues e Joacine Katar Moreira,

Entre tantos, tantos outros.

Mas além da certeza de que aqui, ao contrário do que em tantos outros sítios, estamos melhor acompanhados do que sós, pensei sobre o que fazemos todos os dias. Que propósito temos. Que compromisso honramos. A que ambições devemos responder.

E, senhoras e senhores Deputados, creio ter alcançado a possibilidade de uma resposta.

Neste século, que terá tudo de turbulento, a função maior da Assembleia será conciliar as possibilidades do futuro com as urgências do presente; será garantir que a Inovação e a Tecnologia estarão ao serviço do bem-estar dos portugueses; será proteger as instituições democráticas da instabilidade que todas as mudanças nos trarão; será preparar atempadamente um enquadramento legal que preserve o papel do Estado na proteção do interesse dos portugueses face a elas.

Esse, a meu ver, é o desafio maior. Servir de ponte entre o que somos e o que queremos ser, sem deixar ninguém para trás.

Não ficar sentado à espera da mudança, nem correr desenfreadamente contra ela.

Esse é um objetivo comum, em que cada um de nós prefere caminhos alternativos, mas não menos comum por isso.

É assim no 5G, nas suas mil e uma possibilidades e nos seus outros tantos riscos. É assim no surgimento do Blockchain, que revolucionará a privacidade e a tecnologia de dados no planeta. E é assim, principalmente, na descarbonização do planeta e na luta contra as alterações climáticas.

Não é preciso ser de esquerda ou de direita para ver que a sustentabilidade do nosso habitat, a sua articulação com as políticas públicas e o seu potencial económico devem ser considerados em conjunto.

Daqui a dez anos, estou convicto, as empresas e indústrias neutras em carbono serão líderes na economia mundial. E este Parlamento deve fazer tudo para garantir que o nosso tecido empresarial e industrial faz por integrar esses sucessos.

Este Parlamento deve fazer tudo para, transversalmente, sensibilizar uma geração para a emergência de eliminar as emissões de carbono e manter a temperatura média do planeta em níveis não destrutivos, para que não existam mais catástrofes.

Senhoras e senhores Deputados, em plena pandemia, com aviões em terra e automóveis parados, as emissões tiveram uma redução que não alcançou os 5%. Há muito a fazer e adiar o problema não é solução. Não temos Plano B!

É este o apelo que deixo, é esta mensagem que trago.

E termino com uma nota de agradecimento ao Sr. Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, ao Telmo Correia e à Cecília Meireles, meus líderes parlamentares, aos deputados e funcionários do Grupo Parlamentar do CDS, e a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, nos ajudam a concretizar o nosso trabalho diário aqui no Parlamento.

Agradecer também à Comunicação Social.

Nasci em democracia e cresci em Liberdade graças a ela. É por isso grato que saio hoje desta câmara.

Voltando ao poeta irlandês, um homem é original quando fala uma verdade antes conhecida por todos os homens bons. E foi isso que eu aqui também tentei fazer.

Muito obrigado.

 

João Gonçalves Pereira

31 de março de 2021

 

Deputados CDS

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Telmo Correia

Círculo Eleitoral Braga Presidente do Grupo Parlamentar  

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Ana Rita Bessa

Círculo Eleitoral Lisboa

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Cecília Meireles

Círculo Eleitoral Porto  

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João Pinho de Almeida

Círculo Eleitoral Aveiro

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Pedro Morais Soares

Círculo Eleitoral Lisboa